O Templo , o Mestre e o Discípulo

  • Post published:25/05/2012

Em se tratando de iniciação ou evolução espiritual, o tríplice aspecto – Templo, Mestre e Discípulo – é para a grande maioria dos seres humanos um hercúleo desafio de entendimento, visto que envolve em seu contexto aspectos subjetivos e objetivos.

Antes, porém, explicaremos separadamente o que entendemos por templo, mestre e discípulo, de maneira clara e objetiva, para melhor compreensão de todos.

Por parte, começaremos pelo Templo, que, analogicamente, usando de uma visão macro poderia ser chamado de Planeta Terra, local onde os verdadeiros Mestres ainda são pouco conhecidos e, quando reconhecidos, são ignorados por uma enorme parcela da humanidade.

Visto desta forma, todos nós somos discípulos da evolução sideral que, no plano da forma em experimentação e aprendizado, buscam encontrar o seu templo e reconhecer o seu verdadeiro mestre!

Por outro lado, ao imaginarmos um ambiente cujo santuário, supostamente, seja destinado à reunião de discípulos e mestres, imediatamente, pensamos em locais apropriados aos ensinamentos de cunho esotérico. Utilizando-nos dessa visão micro, no que diz respeito a um círculo iniciático, esse é um fator fundamental à relação e vivência entre as pessoas que desfrutam experiências e cooperam no aprimoramento dos seus atributos espirituais.


Nesse caso, em muitas circunstâncias, as vivências ficam longe dos olhos profanos. Antes de avançarmos na temática, importante é conceituarmos o que seria um templo dentro de uma concepção umbandista, não generalizada ou convencional.

Por esse contexto, vemos, pela visão particular de Umbandista, que os templos sintonizados com os desígnios e fundamentos universais seriam ambientes sagrados onde, a todos, é facultada a oportunidade de se encontrarem espiritualmente. Portanto, seriam locais destinados ao estudo e aprendizado metódico, propício a combater no ser humano a ignorância, o ódio e os apegos; abrindo-se, consequentemente, caminho às conquistas essenciais do espírito.

Na verdade, essa é uma realidade ainda pouco vivenciada pelo aprendiz que se compromete com a iniciação no templo, já que a conduta lhe exigirá dedicação, honestidade e disciplina, princípios que transcendem os limites da forma.

Este ambiente que chamamos de Templo não seria simplesmente um local geográfico, espacialmente delimitado por paredes, onde se busca apenas os aspectos regionais e culturais de uma religiosidade temporal, muitas das vezes equivocada quanto à verdadeira iniciação entre a criatura e seu criador, mas sim o caminho, o elo que colocaria em conexão o homem e a Divindade que o criou.

Independente dos citados templos estarem localizados nas grandes metrópoles ou nos meios rurais, seriam como “oásis espirituais” em meio ao burburinho e agitação dos espaços urbanos ou, “spars”, meio ao silêncio e tranquilidade dos campos em redutos rurais com toda a sua exuberância.

Como “oásis”, nas “selvas de pedras”, são ambientes protegidos, espiritualmente, que permitem ao homem alçar voo, através da própria mente, quando utiliza sua fé para “dialogar” com Deus ou com os seus emissários. Por esse viés, o homem se renovaria pela intuição na busca do conhecimento.

Esse conhecimento ao qual nos referimos aqui, não seria simplesmente linear ou acadêmico, mas sim um conjunto de informações que abrangeria não apenas as nuances da gnose humana, como também toda e qualquer expressão que levasse o ser humano ao aprendizado espiritual.

Com ressalvas, o ensinamento ministrado pelos citados emissários espirituais, no dia a dia da vivência templária do terreiro, seria progressivo, não imediatista, o que poderia levar, a depender do caso, inúmeras existências sem perder o elo de continuidade. Sendo esse conhecimento um requisito para o aprendizado, não deixaria de ser uma constante no progresso espiritual. Portanto, não estaria restrito somente às injunções da dimensão física terrena, mas também às circunstâncias das dimensões astrais.

Devemos, por conseguinte, ter em mente que o templo físico é uma exteriorização ou réplica mais grosseira do verdadeiro templo espiritual. Assim, fica evidente que os ensinamentos ministrados no plano onde nos encontramos é um reflexo dos ensinamentos em sua natureza mais sutil.

Conclui-se, assim, que os indivíduos encarnados, participantes do processo de aprendizado templário, não olvidariam os ensinamentos astrais mesmo depois de desligados da forma de manifestação corpórea, sem quebra de continuidade, em outra dimensão, em seu progresso espiritual adimensional.

Após essas elucidações referentes ao Templo, é necessário falarmos da figura do Mestre como o representante de uma hierarquia espiritual junto àqueles que são chamados de discípulos.

Na concepção verdadeira do termo, Mestre é título legítimo concedido a quem demonstra conhecimento e que, através de exemplos, conquista e mantém a sua credibilidade junto aos seus seguidores. A legitimidade e credibilidade aqui aludidas devem ser sustentadas por uma hierarquia ascendente (humana ou espiritual). Sem dúvidas, aqueles que estão posicionados nos templos terrenos, de alguma forma, são discípulos/mestres na busca de grau de conhecimento ainda maior. São descendentes os mestres que já se encontram em uma posição de comando essencial. Ocorre daí, a “tradição de raiz”, ou seja, a verdadeira transmissão de ensinamentos de uma dimensão superior até chegar aos mestres que os representam no plano físico.

Para nós, umbandista integrado ao corpo mediúnico do AUEA, o chamado conhecimento vertical é aquele que flui de cima para baixo, não preocupado apenas com ensinamentos filosóficos e religiosos horizontais, mas sim com o aprendizado integral, potencializado e sustentado pela prática, que capacita o discípulo em suas realizações espirituais e materiais.

Esses Mestres, quando identificados pela grandeza de seus espíritos, são legítimos representantes da evolução humana que ressurgem dos tempos imemoriais. Vários desses mestres comandam a humanidade em muitos setores e são ancestrais que já não mais encarnam, isto é, não mais carecem de passar pelo plano da forma, salvo quando em missão sacrifical.

A figura do Mestre, caso não corresponda em essência, poderá trazer uma conotação disforme, especialmente, quando ocupa uma posição que não equivale à sua real identidade, se observada pela vivência e relação de aprendizado. Assim, são formatados estereótipos, baseados numa relação de domínio e submissão, consciente ou inconsciente, com emprego de manipulação, coerção e domínio cuja consequência advém da ignorância espiritual recíproca entre vários indivíduos. Não é incomum depararmo-nos com falsos mestres, que camuflados, intitulam-se detentores de uma sabedoria que não possuem. Nisso, trazem o verniz da vaidade estampada na mentira e na soberba.

Há necessidade, neste momento, de entendermos como é um verdadeiro mestre encarnado. Dentro dos limites de um templo Umbandista, temos em mente que o “Mestre”, nas lides mediúnicas e embates espirituais terrenos, não é Deus e muito menos infalível. Jamais podemos desprezar que:

– O Mestre, por estar na condição de ser encarnado, tem limites como muitos dos seres humanos; – O Mestre pleno, total, nesse plano terrestre, é um mito; – A presença do Mestre é sempre relativa, em função de momentos diferentes da jornada evolutiva; – O Mestre só é real quando encontra eco e há ressonância no interior daqueles que são conhecidos como seus discípulos. – O Mestre não procura discípulos, mas os reconhece e vice-versa; – O Mestre existe até o momento em que ele é reconhecido como tal.

Logo, “para cada rebanho, haverá o melhor pastor…”, por isso, a diferença de graus consciencionais.

Em face à heterogeneidade dos seres humanos, a relação do Mestre com os seus discípulos é sempre uma “via de mão dupla” uma vez que, se existem vários discípulos, há, por conseguinte, conhecimentos, comportamentos, atitudes, experiências e vivências diversas. Assim, o mestre legítimo, ensina e aprende com aqueles que estão ou são verdadeiramente seus discípulos.

É preciso dizer que o Mestre, na convivência do dia a dia com os que lhe são tutelados, aprende a melhor forma de lidar com seus discípulos. Assim, sem desrespeitar os graus de entendimento de cada um, poderá revelar-lhes as realidades tanto da matéria como do espírito.

Em alguns momentos, os Mestres, em suas funções templárias, utilizam-se da magia para modificar situações que se mostram irredutíveis. Nesse contexto, não raro, é bem possível que durante as práticas magísticas aconteçam fenômenos que mexem com a fé e o ânimo do discípulo. Acontece que, geralmente, quando o Mestre utiliza-se da magia, não tem a intenção de impressionar os seus tutelados, mas tão somente fazer com que a roda da vida possa girar, para que a energia volte a seu estado natural, ou seja, de harmonia.

Infelizmente, em se tratando de magia, poucos indivíduos estão preparados para vivenciá-la, pois, quase sempre, quando presenciam movimentações, da qual a ciência é relativa à ordem da natureza, deixam-se envolver pelo estado de euforia improfícua, que em nada contribuem para o progresso espiritual. Nesse caso, deixam de aprender, apreender e compreender o processo magístico em sua essência espiritual.

Dentro da tradição umbandista, entendemos que a “gira de umbanda” é um compromisso dos espíritos e médiuns com a sociedade, que intrinsecamente, não distancia de uma realidade (espiritual, cultural, social, política, econômica) variada, em que há prevalência de um sobre o outro. Necessariamente, a Umbanda busca estabelecer o Sagrado, para isso se compromete com o bem estar planetário.

Sem fugirmos do assunto, no texto “O Homem do século XXI”, escrito por nós e já divulgado no site da instituição, escrevemos sobre a relação do homem consigo mesmo, com a natureza e com o Sagrado, a fim de mostrarmos que o ser humano é um complexo bio (corpo) psico (mente), que socialmente evolui na busca de sua espiritualidade. Assim, a evolução é conquista progressiva que, na condição do homem encarnado, sujeita-se às circunstâncias de tempo e espaço.

Para nós, umbandista, a religião é forma indireta de acessar, decodificar e traduzir a espiritualidade. Desta forma, podemos penetrar na espiritualidade de terreiro pela fé, seja ela ou não, dosada de racionalidade (consciente) ou inconsciente (irracional). Portanto, a “gira de Umbanda”, para seus praticantes, é uma abertura de portas, que lhes permite acessar a espiritualidade, contribuindo para a sua autocura. Essa manifestação não desdenha do rito cuja decodificação é fundamental para elevar o entendimento da coletividade.

Na relação Mestre X Discípulo, quando se tem como parâmetro a iniciação, não há como ignorar duas etapas imprescindíveis à vivência templária. Falamos da etapa na qual o discípulo neutraliza suas divergências internas, que, se vencida, alçará para a segunda fase do aprendizado. Nesta, forçosamente, será colocado em contato com os aspectos externos do templo onde, obrigatoriamente, consciente, ele se envolverá com a sociedade, a fim de neutralizar as divergências externas.

Percebam que uma iniciação dentro dos moldes da Umbanda, em seu conjunto (Templo, Mestre, Discípulo), envolve aspectos objetivos e subjetivos da realidade terreiro.

Avançando um pouco mais a respeito da caminhada evolutiva do homem, deve ficar claro que outras fases iniciáticas são possíveis de serem alcançadas pelo discípulo, que na condição de “ser encarnado”, filiou-se a um Templo e se comprometeu com a tradição de um Mestre escorado pela Espiritualidade. Nesse contexto, caso esteja preparado, haverá de passar também pela fase da experimentação e vivência junto à natureza, etapa relacionada ao meio ambiente, onde a interdependência será matéria por excelência.

Por falar em interdependência, duas palavras são essenciais ao percurso do aprendiz, quando a relação para com o meio não foge à pluralidade, que por extensão e correspondência evoca alteridade. Assim, o Mestre passa a ser um destruidor de ego que sabe dar a cada discípulo orientações seguras, que venham a destruir de maneira consciente, suas ilusões e apegos.

É oportuno ressaltar que o ritual é uma forma de terapia, que permite não só ao discípulo, mas também ao consulente penetrar na espiritualidade. Quando conduzido por um Mestre, são orientações seguras à autocura. Portanto, os ritos que os Mestres, encarnados e desencarnados, vão transmitindo, suavemente, são meios pelos quais seus ensinamentos são adaptados, decodificados e traduzidos ao entendimento de todos. Por outro lado, os ritos, quando não são percebidos como perspectiva de abertura para o crescimento individual e coletivo, representando um portal ou degrau de crescimento espiritual, tornam-se, na realidade, símbolo de domínio e submissão, que em muitos casos chegam ao absurdo da relação “senhor e escravo”.

O Mestre sabe penetrar na realidade de cada um e elevá-lo para estados imediatamente superiores. Por isso, consideramos que as vias mediatas e imediatas são formas de penetração na espiritualidade.

O mestre dotado de senso universal não é simplesmente um mestre templário, ele consegue através do conhecimento adaptar, com maestria, a realidade cósmica a todos que com ele convivem, principalmente, fora das dependências do santuário, no dia a dia. Na relação para com o discípulo, entende ser inviável que o mesmo penetre diretamente em sua realidade e visão, ao notar que o aprendiz não possui grau consciencial para tanto.

Sem perder o foco, correto está o aforismo popular: “Só é Mestre quem tem discípulos e só é discípulo quem tem um Mestre.”

É evidente, que, embora tenhamos falado da relação que envolve Templo e Mestre, este não teria sentido sem a presença do discípulo. Dessa forma, razoável que a tão falada e evocada “Raiz”, em sua tradição, venha acompanhada de uma epistemologia cujo corpo de conhecimento não desdenha do Sagrado. Assim, a linha de transmissão adotada não poderá fugir do método ético que, em essência, não exclua a Sabedoria e o Amor. Por esse foco, ainda que a realidade seja plural e a interdependência fato, a inclusão dos indivíduos, obrigatoriamente, passará pela alteridade que, consequentemente, aprimorará os graus de consciência do ser humano, ora discípulo.

Sabendo que, todos somos espíritos necessitados do amparo de um Mestre no contexto da evolução, não há como não reconhecer a infantilidade em que ainda nos encontramos. Urge, no tempo presente, recebermos orientações seguras para uma caminhada acertada.

Se acompanharam atentamente tudo que aqui escrevemos, perceberam que dentro da vertente do sagrado, os ensinamentos são ministrados à humanidade de maneira progressiva e respeitando os limites de cada um. Dizemos que os ensinamentos têm degraus didáticos necessários à absorção, à argumentação e à dialética, que, quando ensinada, deve estar em consonância com a capacidade de assimilação do aprendiz/discípulo.

Acontece que o ensinamento o qual se origina da “Vertente Una do Sagrado” até chegar a nós, na dimensão terrena, há de ser decodificado por muitos Mestres, até que se encontre em condição de ser assimilado pela nossa mente. Esses Mestres decodificam a realidade em verdade àqueles que os reconhecem como tal. Obviamente, teremos também muitos discípulos posicionados em degraus diferentes bebendo dessas revelações para, consequentemente, chegarem à realidade.

Inegável que, dentro das várias escolas Umbandistas, são verificadas essas diversidades e, se de alguma forma busca-se a iniciação em essência, necessário é que exista um Mestre a revelá-las e a decodificá-las para seus discípulos, pois só assim, a realidade será entendida como uma verdade.

Especificamente, dentro dessas citadas escolas, os discípulos começam como neófitos até alcançarem o grau de iniciados, podendo chegar também a Mestres, após absorverem e demonstrarem, efetivamente, esse aprendizado na prática.

Entretanto, o percurso a ser trilhado por um discípulo nem sempre é fácil, pois exigirá dele esforço e desempenho. Ser discípulo de um Mestre revelador é beber de seus ensinamentos, é estar debaixo de sua mandala e “absorver” com lealdade. Essa capacidade é condição imantada por uma relação que já vem desde muito antes da encarnação.

Concluindo: não existe Discípulo sem Mestre e este sem Discípulo! A interdependência é fato que norteia a evolução do ser humano no contexto planetário dos vários saberes, os quais se renovam de tempos em tempos, sempre vitalizados pela sabedoria dos ancestrais.

Ao levarmos em consideração que a Umbanda é escola para o espírito e que seus templos são salas voltadas para o aprendizado, haverá de existir ambientes herméticos, a fim de que os ensinamentos espirituais possam ser transmitidos à humanidade de forma seletiva e gradual, principalmente, àqueles que se encontram já maduros para receberem essas revelações.

Sem exceção, todos somos discípulos da espiritualidade, que, obrigatoriamente, vista pela eternidade é causa essencial e ética à imortalidade. Desta forma, como não respeitar os ancestrais e a natureza que é ambiente sagrado, santuário divino por excelência, estendido a nós, seres humanos.

Esperamos, pois, que o grau consciencial dos seres humanos se eleve. Assim, poderemos valorizar o Planeta Terra como nosso “Templo maior” e nossos Ancestrais como Guias da humanidade, reconhecendo-nos, por conseguinte, como discípulos em busca de um aprendizado real e atemporal.

Belo Horizonte, 25 de fevereiro de 2007.

Marashitan

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